Raízes bantu de Angola

Antes de ser um trabalho social, a Casa da Palha é memória. Uma raiz africana de matriz bantu, vinda de Angola e do Kongo, mantida viva no Jardim Brasil há mais de cinquenta anos.

De onde viemos

Angola, Kongo e a tradição bantu

Os povos bantu ocupam uma vasta região da África Central e Austral. Da tradição que chegou ao Brasil pelas mãos de homens e mulheres escravizados, a Casa da Palha guarda a herança de Angola e do Kongo — duas matrizes culturais e linguísticas distintas que convivem na mesma casa.

Dessa convivência nascem duas línguas que ainda ecoam nas saudações, nos nomes e nos cânticos da comunidade: o Kimbundu, falado em Angola, e o Kikongo, falado na região do antigo reino do Kongo.

Fundada em 16 de agosto de 1974 como casa de tradição africana, a Casa tornou-se OSCIP em 1998, sem nunca abrir mão da sua raiz espiritual e cultural.

Herança ancestral

O povo Makonde

Entre as referências culturais bantu preservadas pela Casa está o legado do povo Makonde, originário dos planaltos do norte de Moçambique e do sul da Tanzânia. Agricultores e escultores, são reconhecidos mundialmente pelas máscaras e esculturas em madeira que traduzem sua estética e cosmovisão.

Protegidos pelo isolamento geográfico, os Makonde mantiveram uma forte coesão cultural ao longo dos séculos. Sua religiosidade tradicional, suas danças e seus ritos de passagem — como a célebre dança Mapico — são até hoje um símbolo de resistência da identidade africana.

"A cultura, para a Casa da Palha, nunca foi enfeite. É a forma mais antiga de resistir."

Patrimônio cultural

Os minkisi: as forças da natureza

Na cosmovisão bantu cultuada na tradição de Angola, as forças da natureza são representadas pelos minkisi (singular nkisi). Apresentamos seus nomes e domínios como patrimônio cultural e linguístico — uma forma de preservar a memória de um povo.

Nzambi Mpungu

O Deus Todo-Poderoso, princípio supremo da existência. Está acima de tudo, como origem primeira de onde emanam todas as forças da natureza — não é cultuado como os demais minkisi, mas reconhecido como o criador de quem tudo depende.

Nzambi Muambi

Deus Pai, o Criador. A face geradora de Nzambi, que dá forma ao mundo e à vida. Na cosmovisão bantu, é dele que parte a ordem do universo, depois confiada aos minkisi.

Kitembu

O Senhor do Tempo e patrono da nação Angola. Comanda o tempo cronológico e mítico, as estações, os ventos e o clima. É representado por um mastro com bandeira branca — memória dos tempos em que os povos bantu eram nômades e esperavam o vento mover a bandeira para indicar o rumo da nova jornada.

Equivale a Tempo / Irocô.

Hongolo

O Senhor do Arco-Íris. Serpente de duas cabeças que liga o céu à terra e conduz a fertilidade das chuvas. De natureza andrógena — em sua face feminina, Angoroméa —, rege a continuidade e a perpetuação da vida.

Equivale a Oxumarê.

Kabila

O Pastor e caçador das matas. Senhor das pastagens e da fartura, cuida dos rebanhos da floresta e provê o sustento. Inkice ligado à abundância e à vida nas matas.

Equivale a Oxóssi.

Kaitumba

A Senhora das Águas Salgadas, dona do oceano e do mar — a Calunga Grande. Mãe que acolhe e protege; também chamada Mikaiá ou Kokueto.

Equivale a Iemanjá.

Katende

O Senhor das Folhas. Dono do segredo das ervas, da medicina e da ciência da cura — sem suas folhas, nenhuma tradição se realiza. Ligado à agricultura e ao conhecimento ancestral.

Equivale a Ossain.

Kavungu

O Senhor da Terra, da Saúde e da Cura, que se cobre de ráfia (palha). Domina a doença e a passagem entre a vida e a morte. Suas grafias — Caviungo, Cafungê — estão na própria raiz do nome Bakissi Aueto Mona Cafunge e na palha que dá nome à Casa.

Equivale a Obaluaiê.

Lemba

O Senhor da Paz e da criação. O mais elevado dos minkisi, primeiro a ser criado por Nzambi e encarregado de cuidar do mundo; pai de todos os inkices. Mediador que acalma conflitos e restabelece a harmonia.

Equivale a Oxalá.

Matamba

A Rainha dos Ventos e das Tempestades. Guerreira que domina os raios, a chuva e os mortos. Seu nome vem do Reino da Matamba, em Angola, governado no século XVII pela rainha Nzinga (Ginga) — símbolo da resistência africana ao colonialismo.

Equivale a Iansã.

Maviletango

O Guardião. Qualidade cultuada pela Casa, ligada à proteção e à vigília da comunidade — uma das expressões próprias da tradição mantida no Jardim Brasil.

Mutakalombo

O Caçador. Senhor das matas e da caça, provedor que conhece os caminhos da floresta e garante o alimento da comunidade.

Equivale a Oxóssi.

Ndanda Lunda

A Senhora das Águas Calmas e Doces. Dona das nascentes, rios e cachoeiras, da fertilidade, da beleza e da riqueza. Seu nome significa "Senhora da Lunda", em referência ao povo e ao rio Lunda, no norte de Angola.

Equivale a Oxum.

Nkosi

O Pioneiro e Vingador das Injustiças. Inkice do ferro, da forja, da guerra e das estradas de terra; abre caminhos e detesta a injustiça e a humilhação. Dá nome à Feijoada de Nkosi.

Equivale a Ogum.

Nvunji

A força da juventude e da justiça. O mais novo dos minkisi, ligado à inocência, à pureza e à proteção das crianças. É na leveza e na alegria da infância que se assenta o seu senso de justiça.

Equivale a Ibeji.

Nzazi

O Senhor dos Raios e Trovões. É o próprio relâmpago e faz justiça entre os humanos; representa o equilíbrio do cosmo, a força e a sabedoria das decisões justas. Carrega o machado de dois gumes.

Equivale a Xangô.

Pambu Njila

O Senhor dos Caminhos. Guardião das encruzilhadas e da comunicação, o primeiro a ser saudado — aquele que abre ou fecha os caminhos entre os humanos e as divindades.

Equivale a Exu.

Teleku Mpensu

O Pequeno Pescador que veio das Águas. Qualidade cultuada pela Casa, ligada às águas e ao sustento que delas vem — outra expressão própria desta tradição bantu.

Zumbaranda

A Mãe da Terra Molhada. A mais velha e ancestral, senhora da lama, dos pântanos e da decomposição que renova a vida. Guardiã da memória e do limiar da morte.

Equivale a Nanã.

Para entender os nomes

Glossário da tradição

Muitos dos títulos e termos que você encontra pela Casa têm origem no Kimbundu e no Kikongo. Aqui vão alguns deles.

Tata / Tat'etu
Pai · "meu" ou "nosso pai". Título de liderança masculina (ex.: Tata Funandeci).
Mam'etu / Mama
Mãe · "minha" ou "nossa mãe".
Makota
Título dado à mais velha, de grande respeito na comunidade (ex.: Makota Maria Ilza).
Dikota
Título dado às mais antigas da casa.
Nganga / Ngana
Sacerdote ou sacerdotisa.
Nengua
Sacerdotisa, senhora (do Kikongo).
Sanzala
Povoação ou aldeia.
Soba
Autoridade máxima da sanzala, chefe da comunidade.
Maka
Assembleia pública; reunião para resolver questões da comunidade.
Alembamento
Do Kimbundu ilêmbu: dote ou tributo de honra prestado pelo noivo à família da noiva.
Kimbundu
Língua bantu falada em Angola, raiz da tradição da Casa.
Kikongo
Língua bantu da região do antigo reino do Kongo.
Pequeno léxico

Palavras do dia a dia em Kimbundu

Uma amostra do vocabulário cotidiano guardado pela Casa. A língua viva também é forma de manter a raiz de pé.

Ave
Mbemba
Águia
Ngonga
Andorinha
Piápia
Coruja
Kakoko
Galinha
Sanji
Galo
Kolombolo
Pato
Nzóue
Pombo
Diembe
Pavão
Kihuze
Boi
Ngombe
Búfalo
Pakasa
Baleia
Kimbiji
Camarão
Dikosa
Jacaré
Ngandu
Terra
Ixi
Abóbora
Ritanga
Abraço
Kandandu
Irmão
Pange

Um glossário mais completo está em preparação, com revisão de quem mantém a tradição viva.

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A raiz se mantém com a comunidade

Preservar a cultura também é cuidar de quem a carrega. Conheça o trabalho da Casa e ajude a manter essa memória viva.

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